Bianca é tendência, conta pra ela

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Ela é uma, duas, três, em quantas precisar se multiplicar para se sentir inteira… (Ilustração: Bru Fioreti)

Um adjetivo para descrever a Bianca? Ah, ela é inquieta.

Cada hora inventa uma coisa. De três em três meses, aparece com uma paixão nova. Não desse tipo que você pensou. As paixões da Bianca são jardinagem, teatro, design, História do Brasil, poesia, artesanato. Cozinhar e degustar vinhos... Pera, isso foi no mês passado, ou retrasado? Agora está aprendendo sobre cervejas, anda interessada na época da Segunda Guerra, cogitando se arriscar como DJ e fazendo um curso de reiki.

Não faz assim, não julga a Bianca.

Ela não é perdida, ela só é interessada. Demais. E interessante.

certo que sofreu para escolher a faculdade e, para tentar fazer o curso mais abrangente possível, pendeu para a Comunicação. Deu certo. Desde antes de se formar, sempre teve trabalho. Não com aqueeeele salário. Mas nunca faltou emprego nem dinheiro.

Faltou só satisfação.

Ela sempre invejou essa gente que se diz "preenchida" no trabalho. Buscou todas as informações que pôde sobre esse tal de propósito que o povo fala no Instagram e chegou à conclusão que talvez não fosse pra ela.

Não entenda mal: ela curte o trabalho que tem; mas vai, faz, volta pra casa e pronto.

Não acha que esse trabalho, nem nenhum que teve até hoje, tenha sido a última Bono de doce de leite do pacote. Não quer se dedicar fora do horário. Não vê sentido nessa obsessão por fazer tanto a mais, se mostrar realizada e agradar chefe. Ela simplesmente não é tão apaixonada assim, não está disposta.

Também não compra a história de empreender, de que o único caminho para a confiança é se tornar uma supermulher empreendedora — ou, trocando em miúdos, se acabar num projeto solo. Para ela, é difícil pensar numa paixão só que justifique todo esse investimento de tempo e energia. Em dois meses, estaria enjoada do tema, da empresa, da própria cara…

Vem cá, e a Bianca deveria ser tão apaixonada assim por uma coisa só?

Seria esse 120% de entrega laboral a melhor maneira de ser feliz e prosperar no mercado? Seriam o hiperfoco e a especialização as únicas vias para Bianca sair da média? Aliás, seria a média tão odiosa assim? Ou haveria outras formas de se encontrar, ganhar dinheiro, se destacar?

Haveria, sim. Ou pelo menos cada vez mais estamos mais perto dessas terceiras, quartas, quintas vias de felicidade profissional.

Conheci a Bianca há uns cinco anos. Para ser bem sincera, conheci umas boas Biancas nos últimos anos. Trabalhei com algumas, fiz amizade com outras.

Nenhuma delas fazia corpo mole no trabalho, nenhuma delas tampouco era do tipo perdida na vida. Mas elas se julgavam perdidas, desfocadas e "losers" por causa do que o mundo parece gritar o tempo inteiro. Achavam que eram baratas tontas porque não queriam uma coisa só da vida e porque não se sentiam completas com uma atividade, um caminho. Eram multifacetadas, e precisavam explorar o novo para sorrir. Mas todo mundo apontava na direção contrária.

Já notou: parece que a gente precisa AMAR (assim, com letra maiúscula) o que faz para ganhar a vida e que, portanto, precisa se entregar a mais, ficar exausta, almejar crescer nessa carreira, competir, alcançar o topo.

Que topo, criatura? O que essa fissura por crescimento vertical, paixão pelo ganha-pão e foco profissional unilateral faz é pôr de lado um viés igualmente potente do trabalho que grita no peito de gente como a Bianca: a carreira horizontal e plural.

Bianca quer crescer, evoluir, se expandir. Só não quer que isso seja necessariamente atrelado à empresa atual, nem à profissão que lhe dá sustento hoje, nem à custa de sua paz e de suas horas de sono.

E tá errada?

Soa preguiçoso, coisa de quem não nasceu pra brilhar e está fugindo de pegar no pesado, fala a verdade! Pois nada é mais cruel e anacrônico que pensar assim. Bianca quer se expandir estudando variados temas, crescer mesclando funções e cruzando talentos, evoluir em todos os aspectos e não só no profissional.

Bianca é tendência

Até agora ninguém contou para a Bianca que esse não apenas é um caminho profissional viável, como bem mais adequado aos novos tempos, de uma população que vai envelhecer e que vai precisar praticar o que os especialistas chamam de lifelong learning, o aprendizado por toda a vida. Que vai vivenciar o "aprender a aprender", como tanto se comenta.

Sentar em cima do conhecimento e da qualidade de vida não vai ser suficiente para os carreiristas pregadores do chicote disfarçado de produtividade e do lucro a todo custo. Nem para os ilusionistas do empreendedorismo que apregoam o abominável "trabalhe enquanto eles dormem" com suas fotos de braços cruzados e alfaiataria ajustada.

Os cenários complexos começam a berrar nos nossos ouvidos por mais humanidade, imaginação e pluralidade. As Biancas estão ouvindo mais claramente que a gente.

Bianca e seus pares entenderam que se multiplicar é possível, ainda que, claro, precisem garantir uma fonte primordial de sustento. Ainda que também entendam que precisam fazer escolhas, priorizar e ralar se quiserem algo mais (com o adendo de que o "algo mais" é um desejo individual, e não um caminho inexorável rumo a altos cargos).

O próprio conceito de brilhar não é mais o que era antigamente, ou vai deixando de sê-lo. Brilhar é o que você decidir que seja, desde que consiga não apenas se esforçar, como quebrar barreiras (e algumas são imensas e coletivas), persistir, fazer intersecção de talentos e habilidades, lapidá-los e reinventar-se no processo quantas vezes for preciso. E serão dezenas, gostemos ou não.

O maior talento deste século, há quem diga, é imaginar. Eu agregaria que é se refazer, ciclicamente, em todos os aspectos. Até porque a velocidade da inovação tecnológica e como isso vem sendo desenhado nas últimas décadas não nos deixa muita opção.

Biancas são boas nisso, treinadas por suas efêmeras paixões. Aprenderam a se dedicar ao máximo, absorver o que for preciso e avançar para o próximo desafio sem olhar pra trás.

Biancas usando essa tendência com algum método, então…

Quando digo método, falo do próprio reconhecimento que esse perfil tem hoje, ele é estudado. É o tal do profissional Slash, que sabe ser possível ser mais de uma coisa ao mesmo tempo com sucesso, desde que consiga organizar suas caixinhas. Uma vai ser a principal, no sentido de ser a maior fonte de renda. As demais ocuparão mais ou menos tempo, a depender das necessidades e dos desejos momentâneos acomodados.

Isso é sucesso para quem não quer ser mono.

Bianca é bem-sucedida.

É a cara da mulher segura de si de um desejável futuro próximo, mais plural e que inclui satisfação com a vida além do expediente. Um futuro que questiona, aliás, o conceito de expediente. Um porvir de autogestão pura que, em vez de achar gente como ela "sem foco", a considera multipotencial. Um futuro do tipo menos é mais: menos foco em dinheiro, quem sabe; mais foco no ser humano em sua plenitude.

Um futuro com desafios tremendos, mas oportunidades se agigantando.

Bianca é bem-sucedida, sim, só que ninguém tinha contado para ela.

Carreira, branding pessoal e confiança feminina

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