Só mais uma xícara de café

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Mais uma xícara, nem mais uma palavra // Ilustração: Bru Fioreti

Só mais uma dose. Só mais uma xícara. Só mais um episódio. Só mais um trago. Só mais uma olhadinha. Quantas frases dessas você já disse a si mesma praticando o mais legítimo autoengano? E quem disse que isso é tão demoníaco assim, hein?!

Lucila pegou sua quinta xícara de café — a última — cheia de intenção. Aquela xícara não era uma xícara, era um combustível para trabalhar por mais duas horas e terminar o que devia ter finalizado há dois meses. Uma poção mágica capaz de destravar. Um amuleto que precisa estar ali, à esquerda do computador, para que tudo flua.

A mesa da Lucila estava perfeitamente desarrumada: post-is, lápis, adesivos formando aquela aura de “uma pessoa criativa trabalha aqui”. Temperatura ambiente perfeita, nenhuma criatura para amolar por perto.

Pegou a xícara, sentou-se e eis que… nada. Ah, essa xícara não era mais a mesma. Vai ver que pifou.

Alguma coisa aconteceu desde que largou de vez o trabalho fixo. Foram anos conciliando os jobs como freelancer com a CLT e, quando finalmente conseguiu se livrar do chefe sem noção, sem limites, sem vergonha e sem juízo… nada.

Passaram-se três meses da mais baixa produtividade. Mais uma xícara virou mais uma horinha na cama e mais uma horinha na cama virou "mais dois dias e eu retomo com tudo".

Desculpas para os prazos. Culpa. Olha pra mesa. Culpa. Liga a Netflix. Culpa.

Até que um dia recebeu uma ligação. Era de uma empresa concorrente da que trabalhava antes, com um convite para ser contratada numa posição parecida com a que tinha, porém salário maior. Direitos, horário, tudo bonito.

No meio do caos em que se transformara sua vida, isso soava como um elixir de sanidade, organização mental, segurança e até companhia. E reconhecimento, vale ressaltar.

Mas, em vez da euforia boa do tipo “o mercado me quer”, veio uma dor no alto da barriga, um nó no estômago, para ser mais precisa.

Tudo menos voltar. Eu escolhi sair. Eu nunca mais quero isso.

Caiu num choro doído, profundo, demorado, daqueles que fazem perder o ar entre uma chuva de lágrimas e outra. Olhou-se no espelho chorando e teve pena de si mesma. E raiva.

A cara avermelhada, os cabelos desarrumados, o pijama manchado de catchup, os ombros caídos. A decadência.

Quem era aquela Lucila?

E aí, se olhando no espelho de verdade pela primeira vez em meses, ela se tocou de que não era preguiçosa, fraca, indolente.

Era uma vítima.

Coisa de seis meses antes dessa crise de choro, Lucila havia recebido uma avaliação ruim do chefe — e não vou usar líder aqui, acredite, não caberia.

A avaliação, formal, assinada, documentada, veio com justificativas que ela sabia serem falsas, mas que doeram mesmo assim. Veio também logo depois de ela tentar opinar num projeto e ser repreendida por ousar discordar dele. Aquilo não foi o pior, ou até foi. Mas foi a gota d’água de uma série de (nem tão) pequenos e constantes abusos no dia a dia de trabalho.

Lucila era criativa, vibrante, tinha tudo para se sobressair na empresa. Mas, com razão e sem poder abrir a boca, sentia-se abafada.

Um dia não aguentou mais e… Não! Claro que não se demitiu assim. Ela se organizou, se programou, não brigou, não falou dos abusos e, elegantemente, deixou a empresa. Falaram mal, que era precipitada, que não daria em nada. Mas ela fez o que achava certo.

Achou que, ao se ver livre e começar sua nova etapa profissional, esse passado se dissiparia rapidamente.

O que se dissipou foi a sua criatividade. E, não, nenhuma xícara de café a mais seria capaz de apagar aquela história.

O que aconteceu com Lucila?

As marcas ficaram, mas ela começou a conviver com elas sem fingir que não existiam. Fez terapia, ioga, mapa astral, aula de dança, limpa no guarda-roupa, retiro espiritual e tomou mais chá que café por um tempo. Melhorou, entendeu o que aconteceu. Sacou que não era culpada. Que mesmo quando não parece tão grave, se dói tanto, foi.

Voltou à sua xícara de café e à sua mesa perfeitamente desarrumada. Criou rotina e criou casca.

Seu trabalho é lindo, começa a ser reconhecido, mas às vezes ela ainda ouve a voz do chefe dizendo que é apenas “aquele médio que passa, vai”.

Mais uma xícara de café e vai passar, ela pensa.

A cada xícara que passa, Lucila volta a ser ela.

Este texto pertence à série "Isso o Instagram Não Mostra", da Bru Fioreti.
É dedicado às Lucilas que me lêem com suas xícaras nas mãos ❤

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