Tem coisa que não é para esquecer

Image for post
Image for post
As duas palavras que tomaram as redes sociais e que a gente não vai esquecer tão cedo (Ilustração: Bru Fioreti)

Ressaca do que a gente preferia não ter visto.

Senti isso nessa semana, e sei que muitas outras pessoas sentiram, principalmente mulheres. Sei porque falei com várias.

Nós nos sentimos ressacadas ainda que perfeitamente cientes de que essa ressaca não é um grão de areia perto do que Mari Ferrer e outras mulheres, tantas invisíveis, estupradas, injustiçadas, humilhadas e torturadas, sentiram.

O caso de Mari trouxe luz a um tema que nos embrulha o estômago. Sei também que para muitas de nós o desejo foi de tomar um ENO emocional e fugir do tema. Mas isso o Instagram, o Twitter e os grupos de WhatsApp não deixaram.

Foram pelo menos 24 horas de manifestações feministas — humanas! — indignadas não só com a tese do estupro sem intenção como com o tratamento inaceitável dado a ela, vítima culpabilizada.

Embarcamos, falamos disso, refletimos sobre o machismo, recobramos o viés misógino e revoltante do julgamento pelo assassinato de Leila Diniz. Relembramos que uma mulher é estuprada a cada 11 minutos no Brasil, segundo dados de 2015, e que se é ruim para brancas é pior ainda para pretas e pobres. Sentimos nojo dos machos que não se sensibilizaram com o caso ou o relativizaram de alguma forma.

Vivemos uma intensa e breve ressaca.

É sobre isso que quero falar.

Claro que depois dessa chuva de notícias ruins e análises sobre a precária condição feminina temos todo o direito de querer nos alienar, de buscar algum escapismo. Temos?

Claro, o direito em si temos, mas seria essa a melhor atitude? Dá para ser mulher e descansar?

O primeiro pensamento que me ocorreu foi honrar tudo isso com uma espécie de luto. Essa ressaca que mencionei vivida intensamente, essa azia na boca do estômago sentida com tudo de indigesto que ela carrega. Algo íntimo e profundo.

Desaprendemos isso nessa nossa sociedade líquida (e uso o termo porque Bauman inspirou alguns desses pensamentos). Aprendemos que as coisas são fluidas e devem passar rapidamente. Não nos apegamos, principalmente ao que nos incomoda e desafia.

Mais: nos preocupamos tanto com a gente mesmo como indivíduo que negligenciamos o coletivo. Sentir a dor do outro, como esse caso fomentou, nos pareceu mais estranho que de costume.

Deu vontade de fugir dessa dor.

Mas e se a gente se entregar a ela para que nos traga reflexões mais profundas sobre o que o episódio de Mari Ferrer representa? Não é masoquismo, é engajamento com uma causa que nos interessa a todas — a todos, aliás, porque o feminismo é ferramenta para pensarmos as desigualdades e as injustiças com quaisquer minorias.

Eu também não gosto de sofrer, às vezes me entrego ao discurso fácil do “preciso preservar minha sanidade mental” ou brinco que “o Brasil me obriga a beber”. Ser engajada e se inteirar sobre os meandros injustos da sociedade dói e cansa. Dá vontade de escapar.

É a isso que o mundo líquido nos convida a cada segundo.

Rapidamente outras pautas tomam conta do Instagram e do Twitter, e a gente embarca e se permite fugir. Há uma espécie de aval coletivo para esquecer as dores e partir para a próxima pauta do dia, que pode doer também ou pode ser jocosa, indiferente…

A ordem do dia é sempre intensa, mas aí… neeext!

Outra reflexão importante: se a nossa vida deveria ser tão dicotomizada entre redes sociais e rotina aqui fora. Somos um só indivíduo, que faz parte de um coletivo, e somos interdependentes.

Ser engajado é mais que curtir fotos bonitas e lacração. Surpresa: engajamento não é termo só de rede social! Ser engajado hoje, pelo menos na minha visão, começa por interligar ação online e offline e cuidar da gente, sim, mas também pensar no todo.

E até “a internet” começa a absorver essa visão. Passe a observar quantos ativistas, de bandeiras diversas, crescem nas redes e amplificam suas vozes. Abraçar algo maior que a gente — paradoxalmente, para a sociedade do egoísmo — é uma corrente florescente, uma bem-vinda contra-tendência que o mundo digital ajudou a espalhar.

Voltando ao caso e à ideia de unificar nossas experiências on e offline.

O crime contra ela e o tratamento dado a Mari Ferrer afeta todas nós. Não é olhando para isso um dia que esse tipo de absurdo vai deixar de acontecer.

Acho importantíssima a manifestação pontual, faço e defendo até porque faz pressão e dá frutos (parece ter dado alguns, inclusive, no episódio em questão). Meu ponto é levar um pouco dessa dor, dessa indignação, para o resto da vida, o resto dos dias.

Isso inclui ser a chata do grupo, da família, dos amigos. Aquela para a qual talvez digam “lá vem a feminista”. Eu? Eu digo: “opa, obrigada”.

Para se sentir bem com isso a gente precisa se fortalecer como indivíduos, trabalhando nossa autoestima de uma perspectiva feminista (que nos entende como seres completos, e não só corpos objetificados e boas meninas) e fortalecendo nossa autoestima como grupo (somos fortes quando nos apoiamos e honramos as nossas dores, as nossas diferenças e as nossas lutas).

Não é amargor, embora muita gente vá te dizer isso. Tampouco é doce, preciso admitir. Mas, convenhamos, ser mulher não tem um gosto só mesmo.

O que essa semana ressacada me trouxe com mais força foi a certeza de que eu me fortaleço porque vocês, mulheres, existem e resistem.

Não queremos esquecer nossas dores, elas são presentes, prementes, e nos lembram da necessidade de… lembrar. Manter presentes as dificuldades não é mergulhar em lágrimas por elas, mas procurar enxugar as de quem precisa e lutar para que menos lágrimas caiam, com esperança.

Começa por erguer a cabeça. Vai para os posts, que mobilizam, sacodem e dão resultado graças à força coletiva. Passa pela forma como nos vemos e nos julgamos, as possíveis causas com as quais podemos nos identificar e apoiar e chega até nosso ativismo "invisível" e diário na educação de quem nos cerca.

Então, não, não acaba num buzz de dois dias.

Todo dia é dia de ser mulher pra mim, pra você também. Isso (res)significa tudo.

Mais sobre mim?
Me acompanha no
Instagram @BruFioreti ou no site www.brufioreti.com.br. Também tem conteúdo no meu canal no YouTube.

Get the Medium app

A button that says 'Download on the App Store', and if clicked it will lead you to the iOS App store
A button that says 'Get it on, Google Play', and if clicked it will lead you to the Google Play store