Um vício chamado elogio

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De quantas aprovações, curtidas e biscoitos em rede social se faz uma autoestima? (Ilustração: Bru Fioreti)

Dias desses li uma frase do Mark Twain mais ou menos assim: “posso viver dois meses de um bom elogio”.

Como um alimento, um snack deliciosamente calórico, o elogio (falado ou implícito) nos preenche vazios, infla nossos egos frágeis, dá cor a dias rabugentos. Surge como um sopro suave que nos carrega pelas horas com aquele sorriso de canto de boca.

Isso tem explicação biológica: uma descarga de dopamina invade nosso cérebro quando recebemos esses gracejos — e você já deve ter ouvido falar que isso vale para as curtidas e as novidades na rede social. São flashes de recompensa neuroquímica tão deliciosos quando breves…

Quem não gosta, quem não quer?!

Mas são voláteis, os elogios. E perigosamente viciantes. Quanto mais abundantes se tornam, mais sua ausência é percebida, e dói.

Lembrei uma conversa que tive com um amigo sobre não se apegar nem tanto a elogio nem tanto a crítica. Na ocasião, ele me questionou como então poderia balizar sua performance.

Com um cargo alto em uma empresa de tecnologia, ele meio que entende que está indo bem pelo que o dono da corporação lhe diz. Claro que usa os indicadores clássicos, que sabe que está entregando o que deveria quando bate as metas. Mas pessoalmente só se sente mandando bem de verdade quando ganha um tapinha nas costas. Aquele "confio em você, continue assim".

Eu disse a ele, e repito aqui: acho um perigo delegar nossos parâmetros de performance, autoestima ou rumos da carreira e da vida à aprovação de outrem.

Essa dependência crônica da opinião alheia vira comportamento infantilizado, inconstância em projetos, frustração constante (mesmo quando os objetivos se cumprem) e, claro, um aborrecimento profundo quando nada corre tão bem — e, portanto, o enaltecimento tão esperado não vem.

A meu ver, a coisa funciona melhor se criarmos as nossas próprias métricas de sucesso e nenhuma delas depender de elogio de chefe, curtida em rede social, biscoito de colega.

Métrica de sucesso pode ter a ver com chegar mais perto daquele sonho que quer atingir, com estar conseguindo levar o estilo de vida que desenhou pra si, com se sentir eficaz e confiante depois de um dia cheio de trabalho, com trabalhar o mínimo de horas possível... É algo que depende da gente, misto de realização com sentimento. Métrica de sucesso é como você vai saber que é bem-sucedido no dia a dia, é o que funciona para você.

Funciona, mas, repito… todos nós, em algum grau, sempre vamos procurar algum tipo de elogio, de recompensa. Queremos ser amados, acolhidos, respeitados...

A gente nunca vai estar 100% livre disso.

A sacada, arrisco dizer, não está em ignorar esse traço, mas em mudar o peso que damos ao que dizem sobre nós. Não achar que a cada acerto deveria vir alguma espécie de prêmio. Que cada foto postada mereceria uma salva de palmas. Que se ninguém disse nada o que fez não tem valor.

E geralmente essa expectativa, essa carência, vem associada a uma comparação absurda com os biscoitos que os outros ganharam, é ou não é?

"Por que o outro é aplaudido e eu não? Devo ser uma merda, então."

Pessoalmente, percebo que, quando decido conscientemente não dar tanto crédito assim à opinião alheia, ela automaticamente desce do seu trono na minha vida.

É um alívio. Diminui a cobrança, as imperfeições entram em cena, posso testar coisas novas sem pavor de errar, posso ser mais verdadeira nas minhas escolhas e opiniões, posso dizer não, posso dizer sim, posso me afastar de bajuladores e me aproximar de gente sincera (porque não dependo dos primeiros, afinal). Posso mais e posso diferente, porque saio dessa jaula chamada necessidade constante de aprovação.

Recomendo fortemente.

Mas não se cobre: pode levar tempo, é um processo individual de autoaceitação e fortalecimento da autoimagem. Por falar nela…

As autoimagens frágeis

Para muitas mulheres, então, ensinadas que só têm valor se forem as primeiras alunas da sala — ou as mais bonitas, ou as mais magras, ou as mais comportadas— as palmas e os prêmios acabam sendo um vício, uma meta a perseguir inclusive na vida adulta.

Quando dependemos dos outros nesse nível para estabelecer uma boa autoimagem (a maneira como nos vemos e avaliamos), nos fragilizamos ainda mais.

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Por que não cultivar o autoelogio, calcado em autoconhecimento e balizado por autocrítica das boas?

E quem nunca viu uma mulher confiante, que se livrou um pouco da doutrina dos elogios e anda de cabeça erguida, ser vista como arrogante? Mulher que não precisa de aprovação para se sentir bem bota medo em muita gente…

Essa desconstrução é difícil pacas, mas pode começar cedo.

Não à toa uma das várias recomendações resultantes do famoso estudo da psicóloga Carol Dweck é nunca deixar as crianças se tornarem dependentes de elogio. Fazer com que valorizem o esforço, no lugar de se acharem naturalmente inteligentes e pronto.

Quem valoriza o esforço, o processo, muda o foco, não dá tanta moral a críticas nem a louvores. Acolhe, mas relativiza. Entra em aperfeiçoamento constante automotivado.

Mas, aqui e agora, o que seria uma boa prática?

Aceitar de bom grado os elogios que as pessoas nos fazem e nos deliciar com os gracejos que a vida nos dá. Só não achar que isso é o que mede nosso valor.

Acomodar também as críticas que nos fazem crescer. Recebê-las sabendo filtrar o que delas devemos descartar. Autopercepção pura saber saparar o joio do trigo.

Mas, acima de tudo, não fazer de nenhum dos dois, elogio nem crítica, uma tatuagem. Não delegar a nossa autoestima e os nossos parâmetros de sucesso aos outros. Eis uma decisão libertadora.

E os likes e comentários dopaminérgicos das redes sociais?

Ao que aprendi estudando o tema, em geral, quando tomamos consciência desses mecanismos, eles podem até continuar lá, mas deixam de nos dominar por completo.

Ou seja, sabendo das tentações viciantes de mensagens positivas, curtidas e métricas de engajamento já temos meio caminho andado para não confiar tanto assim nelas. Seu efeito ainda estará presente, mas não seremos fantoches à mercê da anuência de terceiros.

Claro que a vida fica amarga se não sonharmos, se nunca embarcarmos em coisas bonitas que nos foram ditas. Sou, juro, a favor de devanear nessas delícias egóicas, é delicioso ficar apaixonada pelo que acham de nós… Mas por quanto tempo? Com que peso?

Não dou poder a ninguém de mensurar meu valor e dizer quem sou.

Pensando em Twain e trazendo aos nossos tempos superpovoados, “elogiativos” e de autoestimas débeis, eu diria que um elogio nos leva não por dois meses, mas por uns 20 segundos.

Depois disso, é com a gente mesmo se valorizar. Senão a busca por mais vira vício.

Descobri algo com esses pensamentos…

Se me dou valor, sou capaz de autoelogios mais sinceros e impactantes do que qualquer outra pessoa no mundo. Bom autoelogio, assim como boa autocrítica, são para quem se conhece bem e aprende a gostar do que conhece. Desses autoelogios, sim, posso viver anos.

Este texto pertence à série “Isso o Instagram Não Mostra”, da Bru Fioreti.

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